Clínica Interdisciplinar / Transtorno do Espectro Autista
← Blog

Dicas

Intervenção precoce no autismo, aprender brincando

Publicado em 15/10/2026· 14 min de leitura

Intervenção precoce no autismo, aprender brincando

A intervenção precoce no autismo pode acontecer dentro das brincadeiras e das rotinas do dia a dia. O foco não é apenas ensinar novas habilidades, mas criar oportunidades de aprendizagem a partir dos interesses da criança, respeitando seu ritmo e valorizando a infância.

No Dia das Crianças, uma pergunta para quem atua na intervenção precoce. Os primeiros anos são um tempo de aprender muito, e o ensino naturalístico apoia a criança desde cedo dentro do brincar e das rotinas.

✓
Responsável técnica. Giovanna Jangarelli Santini, psicóloga (CRP 05/3000780). Especialista em Análise do Comportamento Aplicada (PUC), mestra em Educação Especial (UFSCar), doutoranda em Psicologia Experimental (USP) e Diretora de Desenvolvimento Clínico da Jano Saúde. Conteúdo com base em literatura revisada por pares, citada abaixo.

No Dia das Crianças, em 12 de outubro, vale perguntar como apoiar uma criança autista desde cedo valorizando a infância. A intervenção precoce no autismo pode acontecer brincando, na clínica e em casa, junto com a família.

Este texto defende duas ideias juntas. A primeira é que a intervenção precoce importa. A segunda é que ela pode acontecer dentro do brincar e das rotinas, a partir do que a criança escolhe, e assim valoriza a infância. O caminho se chama ensino naturalístico, e ele aplica os princípios da análise do comportamento aplicada, a ABA. O texto explica por que o começo importa, o que é esse ensino, onde entram o ESDM, o JASPER e o PRT, o que a evidência sustenta e o que ela ainda não responde, e o que levar para a prática.

Por que a intervenção precoce no autismo importa

As autoras do guia para famílias baseado no ESDM, Sally Rogers, Geraldine Dawson e Laurie Vismara, explicam que nos primeiros meses e anos de vida o cérebro do bebê muda rapidamente, absorve informação e é moldado por ela. Cada experiência afeta as ligações cerebrais e constrói mais circuitos. Os cientistas chamam isso de plasticidade cerebral (Rogers et al., 2015, cap. 3).

A Jano concorda com essa leitura. Se os primeiros anos são um tempo de aprendizagem muito rápida, faz sentido oferecer apoio logo que a família e a equipe percebem as diferenças no desenvolvimento. É uma posição nossa, e a pergunta que este texto responde vem depois dela, que é como fazer esse apoio de um jeito que respeite a criança.

Há uma segunda razão, mais simples, para olhar cedo. Uma criança que ainda não fala, não aponta ou não responde ao nome já está tentando se comunicar de outras formas, com olhar, som, gesto e movimento. Apoiar cedo é ajudar a família a entender esses sinais e a responder a eles, e isso muda o dia a dia de todos. Quem começa mais tarde não perdeu a chance. Aprender continua possível em qualquer idade.

Se começar cedo importa, a pergunta seguinte é como apoiar. E aqui aparece uma confusão comum sobre a ABA.

ABA é uma ciência, e não um formato de sessão

As mesmas autoras do guia definem o ponto com clareza. Para elas, ABA é aplicar a ciência da aprendizagem para compreender e mudar comportamentos específicos, e isso está por baixo de muitas abordagens diferentes de intervenção precoce. Elas citam como exemplos o ensino por tentativas discretas, o Pivotal Response Treatment, o Modelo Denver de Intervenção Precoce (ESDM), o Reciprocal Imitation Training, o Milieu Teaching e o Incidental Teaching, e afirmam que todos usam os princípios da ABA (Rogers et al., 2015, cap. 9).

Isso desfaz uma confusão comum. Ensino estruturado, com tentativas repetidas numa mesa, e ensino naturalístico, dentro da brincadeira, são duas formas de aplicar os mesmos princípios. O relatório norte-americano de práticas baseadas em evidência para o autismo, o NCAEP 2020, lista as duas como práticas distintas, o ensino por tentativas discretas, com 38 artigos, e a intervenção naturalística, com 75 artigos (Steinbrenner et al., 2020).

O que é ensino naturalístico na intervenção precoce

É ensinar dentro do que a criança já está fazendo. O NCAEP descreve como técnicas inseridas nas atividades e rotinas de que a criança já participa, para apoiar de forma natural as habilidades que são o alvo do ensino (Steinbrenner et al., 2020).

Um exemplo. A criança empurra um carrinho até a beira do sofá e para. O adulto senta de frente, espera e olha com expectativa. Ela olha de volta, faz um som, e o carrinho segue. Ela acabou de aprender que comunicar funciona, e o jogo continua. É a lógica da análise do comportamento, o que acontece antes, o comportamento e o que acontece depois (Rogers et al., 2015, cap. 9), dentro de uma brincadeira que a criança escolheu.

Para isso, quem ensina segue a liderança da criança, comenta e imita o que ela faz, oferece escolhas e varia as rotinas conhecidas. Profissionais de várias áreas podem aplicar, e pais e familiares também podem usar em casa (Amsbary & AFIRM Team, 2025).

Por que o ensino naturalístico valoriza a infância

A infância é feita de brincar, de rotinas, de pessoas e de coisas de que a criança gosta. O ensino naturalístico parte justamente daí. Ele ensina dentro do brincar, a partir do que ela escolheu.

  • O brinquedo continua sendo brinquedo. A atividade é a que a criança quer fazer, e o adulto se junta a ela.
  • A criança conduz. Seguir a liderança da criança é a primeira estratégia da lista do AFIRM (Amsbary & AFIRM Team, 2025). O interesse dela é o ponto de partida, e não um obstáculo.
  • A rotina vira lugar de aprender. Banho, lanche, vestir e livro entram no dia sem acrescentar horas. As próprias autoras do guia dizem que as estratégias mudam o modo como o adulto já lida com as rotinas típicas, sem exigir mais horas de trabalho da família (Rogers et al., 2015, cap. 2).
  • Recusar é permitido. Quando a criança diz não, o adulto lê isso como informação e volta ao que ela escolheu.
  • A relação vem junto. As autoras descrevem que, quando os pais usam essas estratégias, a qualidade das interações com os filhos melhora e as crianças ficam mais envolvidas socialmente e se comunicam melhor (Rogers et al., 2015, introdução).

Valorizar a infância é uma posição da Jano, que se apoia na neuroafirmação. A evidência indica quais práticas têm base, e a neuroafirmação orienta como aplicá-las. Aqui isso quer dizer ensinar de um jeito que acolhe a criança como ela é e parte do que ela gosta.

Onde entram ESDM, JASPER e PRT

Esses três nomes costumam aparecer como modelos concorrentes. Na leitura do NCAEP, eles estão em níveis diferentes.

ABA, a ciência da aprendizagem Ensino estruturado Ensino por tentativas discretas (DTT) 38 artigos no NCAEP 2020 Ensino naturalístico (NI) 75 artigos no NCAEP 2020 PRT JASPER Milieu Teaching Imitação Recíproca usa os princípios da ABA ESDM, modelo abrangente de tratamento fora da classificação do NCAEP, que avaliou práticas focadas
Como as peças se encaixam, segundo o NCAEP 2020 e o guia de Rogers e colaboradoras. As contagens são de artigos no relatório, de 1990 a 2017.
NomeO que éOnde aparece no NCAEP 2020
PRT
Pivotal Response Treatment
Programa com manual que organiza o ensino em torno da motivação da criança.Era uma prática separada no relatório anterior e foi incluído na intervenção naturalística, como programa com manual que atende aos critérios. O relatório diz que a mudança não indica menos eficácia.
JASPERPrograma com manual que ensina dentro do brincar. A sigla, em inglês, remete a atenção compartilhada, brincadeira simbólica, engajamento e regulação.Programa com manual que atende aos critérios, dentro da intervenção naturalística.
Milieu TeachingPrograma com manual, voltado à comunicação e à linguagem dentro das rotinas. O relatório usa também o nome Milieu Training.Programa com manual que atende aos critérios, dentro da intervenção naturalística.
Imitação Recíproca
Reciprocal Imitation Training
Técnica em que o adulto repete as ações, as vocalizações e outros comportamentos da criança para promover a imitação e outras metas.Aparece dentro da intervenção naturalística.
ESDM
Modelo Denver de Intervenção Precoce
Modelo abrangente de tratamento, ou seja, um conjunto de práticas organizado para atingir um efeito amplo no desenvolvimento da criança pequena.Fora da classificação. O NCAEP avaliou práticas focadas e não avaliou modelos abrangentes, e cita o Modelo Denver como exemplo desse tipo de modelo.

O relatório explica que juntou o PRT à intervenção naturalística para dar mais clareza conceitual, e que isso não significa que a prática seja menos eficaz ou menos baseada em evidência (Steinbrenner et al., 2020). Os programas com manual dessa categoria, PRT, JASPER e Milieu Teaching, têm evidência suficiente para serem considerados práticas baseadas em evidência por si mesmos.

O JASPER e o PRT mostram bem a lógica do ensino naturalístico. No JASPER, o adulto age como parceiro de brincadeira, espera que a criança tome a iniciativa e trabalha atenção compartilhada, brincadeira simbólica, engajamento e regulação. O programa foi desenhado para crianças a partir de 12 meses (Kasari et al., 2022, cap. 1). No PRT, o ensino se organiza em torno da motivação. A criança escolhe, e o adulto oferece escolhas o tempo todo, porque os autores lembram que preferir é diferente de escolher, e a escolha muda de um minuto para o outro. As tarefas variam, e a recompensa é natural, como receber o carrinho depois de pedir o carrinho (Koegel & Koegel, 2019, cap. 1). Os dois exigem profissionais treinados, e por isso, em casa, o caminho é brincar junto com a equipe orientando.

O guia de Rogers e colaboradoras descreve que as estratégias que ele ensina se baseiam no ESDM e se apoiam em seguir os interesses da criança durante as brincadeiras e as rotinas do dia a dia (Rogers et al., 2015, cap. 3). Em resumo, PRT, JASPER e Milieu Teaching são formas com manual de ensino naturalístico, e o ESDM é um modelo mais amplo que também parte dos princípios da ciência da aprendizagem e usa estratégias de ensino na brincadeira.

Perguntar qual dos três é o melhor mistura níveis diferentes. Uma pergunta mais útil para quem escolhe um programa é como o ensino acontece nas rotinas da criança, quem define os objetivos e como o progresso é medido.

O que a evidência sustenta

  • Intervenção naturalística. Atende aos critérios de prática baseada em evidência do NCAEP, com 75 artigos publicados de 1990 a 2017, 26 até 2011 e 49 de 2012 a 2017. O critério exige demonstrações de eficácia em artigos de boa qualidade e replicação por grupos de pesquisa independentes (Steinbrenner et al., 2020, e Hume et al., 2021).
  • Outro relatório americano. O National Standards Project, fase 2, do National Autism Center, classifica as Estratégias de Ensino Naturalístico como intervenção estabelecida, para crianças de 0 a 9 anos, a partir de 27 artigos na primeira fase e 3 na segunda (National Autism Center, 2015). Os números são pequenos, e o relatório é uma revisão separada, com critérios próprios.
  • Ensino estruturado. O ensino por tentativas discretas também é prática baseada em evidência no mesmo relatório, com 38 artigos. As duas formas têm base, e a escolha entre elas depende do objetivo e da criança, definidos pela equipe junto com a família.
  • JASPER. Os autores do programa relatam 10 ensaios controlados e randomizados, com quase 500 crianças, feitos por eles e por outros grupos (Kasari et al., 2022, cap. 1). É o relato da própria equipe do programa, e não uma revisão independente.
  • Família como quem aplica. A intervenção realizada pelos pais é outra prática baseada em evidência do NCAEP, com 55 artigos, 13 até 2011 e 42 de 2012 a 2017 (Steinbrenner et al., 2020).
  • Primeiros anos. A ficha do AFIRM, baseada no NCAEP, registra efeitos positivos da intervenção naturalística em comunicação, atenção compartilhada e brincadeira já na faixa de 0 a 2 anos (Amsbary & AFIRM Team, 2025).

O que a evidência ainda não responde

Quatro limites

  • Quanto mais cedo. Os estudos de ensino naturalístico incluem crianças pequenas, e a Jano compartilha a leitura das autoras do guia de que os primeiros anos são um tempo de muita aprendizagem. As fontes lidas para este texto não dizem a partir de que idade o ensino naturalístico funciona melhor, e por isso ele não promete prazo nem idade ideal. A posição da Jano é não esperar para começar, e quem começa mais tarde também aprende.
  • Idade. No conjunto do relatório, a maioria dos estudos foi feita com crianças de 3 a 5 anos, 42% e 43% nos dois períodos, e de 6 a 11 anos, 55% e 57%. Crianças de zero a 35 meses aparecem em 6% e 9% dos estudos. O relatório também registra que estudos com crianças apenas em risco para autismo, sem diagnóstico, foram excluídos, o que pode ter reduzido o número de estudos com bebês e crianças muito pequenas (Steinbrenner et al., 2020). Para os menores, a base de estudos é mais fina, o que pede cuidado ao interpretar e não é motivo para adiar. Os próprios autores do PRT escrevem que a pesquisa com bebês e crianças de até 24 meses é preliminar. Eles contam que as intervenções que parecem funcionar nessa idade tendem a ser feitas pelos pais, no ambiente natural da criança, e que no primeiro ano o foco são habilidades anteriores à fala, como interação social e atenção compartilhada (Koegel & Koegel, 2019, cap. 4).
  • ESDM como programa completo. Fica fora do que o NCAEP avaliou. Este texto não diz se o ESDM funciona melhor ou pior do que outros modelos, e não compara os três nomes.
  • Resultados individuais. Os números descrevem grupos de crianças. Cada criança responde de um jeito, e nenhum resultado é prometido.

O que levar para a prática

Com esses limites em mente, o que muda no trabalho do profissional? Seis pontos saem das leituras acima, cada um com a fonte de origem.

  1. Parta do interesse da criança. Os três programas começam por aí. O guia do ESDM pede que o adulto identifique o que a criança gosta e siga a liderança dela (Rogers et al., 2015, cap. 4). No JASPER, o adulto deixa espaço para a criança fazer escolhas e compartilhar ideias (Kasari et al., 2022, cap. 1). No PRT, a escolha é o primeiro componente motivacional, e o livro lembra que preferir um brinquedo é diferente de escolher, e que a escolha muda de um dia, ou de um minuto, para o outro (Koegel & Koegel, 2019, cap. 1). Por isso vale oferecer escolhas ao longo de toda a sessão.
  2. Use os outros componentes motivacionais. Intercalar tarefas já dominadas com tarefas novas, variar as tarefas, usar a recompensa natural e recompensar a tentativa fazem parte do mesmo conjunto (Koegel & Koegel, 2019).
  3. Nomeie o que o brincar está ensinando. O JASPER organiza o brincar em quatro domínios, atenção compartilhada, jogo simbólico, engajamento e regulação, e descreve 16 níveis de jogo simbólico. Isso ajuda a planejar e a registrar o alvo de cada brincadeira (Kasari et al., 2022).
  4. Mantenha objetivos, plano e registro. O ensino naturalístico é intencional. Brincar junto não dispensa definir o que se ensina e medir o progresso.
  5. Treine até a fidelidade. O livro do JASPER é dirigido a profissionais treinados e diz que é preciso chegar à fidelidade com uma especialista certificada. Ler o livro não substitui esse treino (Kasari et al., 2022).
  6. Inclua a família. A intervenção implementada pelos pais está entre as 28 práticas do NCAEP, com 55 estudos (Hume et al., 2021). O guia de Rogers e colaboradoras serve de apoio ao que a família aprende com a equipe, e o próprio livro orienta usá-lo em conjunto com ela (Rogers et al., 2015, cap. 1).

Cuidados

  • Qualquer forma de comunicar conta, gesto, olhar, som, imagem ou palavra.
  • A criança pode recusar. A recusa é informação, e o adulto volta ao que ela escolheu.
  • Comparar com outras crianças não ajuda. O ponto de partida é o interesse desta criança.

Fale com a equipe da Jano

Quer conversar sobre intervenção precoce e ensino naturalístico?

Converse com a equipe da Jano. R. Sorocaba, 240, Botafogo, Rio de Janeiro. Telefone (21) 2018-5921. WhatsApp wa.me/552120185921.

Referências

  1. Amsbary, J., & AFIRM Team. (2025). Naturalistic intervention (NI) EBP brief packet (versão atualizada em 2025). Frank Porter Graham Child Development Institute, The University of North Carolina at Chapel Hill. https://afirm.fpg.unc.edu/wp-content/uploads/Naturalistic-Intervention-Brief-Packet-Amsbary-AFIRM-Team-Updated-2025.pdf
  2. Hume, K., Steinbrenner, J. R., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, S., & Savage, M. N. (2021). Evidence-based practices for children, youth, and young adults with autism: Third generation review. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51, 4013-4032. https://doi.org/10.1007/s10803-020-04844-2
  3. Kasari, C., Gulsrud, A. C., & Shire, S. Y. (2022). The JASPER model for children with autism: Promoting joint attention, symbolic play, engagement, and regulation. The Guilford Press.
  4. Koegel, R. L., & Koegel, L. K. (2019). Pivotal response treatment for autism spectrum disorders (2nd ed.). Paul H. Brookes Publishing.
  5. National Autism Center. (2015). Findings and conclusions: National standards project, phase 2. Author.
  6. Rogers, S. J., Dawson, G., & Vismara, L. A. (2015). Autismo: Compreender e agir em família (A. N. Reis, Trad.). Lidel. (Obra original publicada em 2012).
  7. Steinbrenner, J. R., Hume, K., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, S., & Savage, M. N. (2020). Evidence-based practices for children, youth, and young adults with autism. The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute, National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice Review Team. https://ncaep.fpg.unc.edu/wp-content/uploads/EBP-Report-2020.pdf

Este texto tem finalidade informativa e não substitui a avaliação de um profissional. As informações foram conferidas em outubro de 2026.

Continue lendo