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Ambientes de muito estímulo e autismo, o que preparar antes de ir

Publicado em 03/09/2026· 12 min de leitura

Ambientes de muito estímulo e autismo, o que preparar antes de ir

A ida a ambientes de muito estímulo fica mais tranquila quando o preparo acontece antes, em casa. O foco não é a pessoa aguentar mais estímulo, é ampliar o que ela consegue escolher fazer.

Um festival, uma festa de aniversário ou um shopping cheio colocam uma barreira real para grande parte das pessoas autistas. Os recursos de acessibilidade abrem a porta, e o preparo feito antes é o que sustenta a ida.

O Rock in Rio acontece na Cidade do Rock, no Rio de Janeiro, nos dias 4, 5, 6, 7, 11, 12 e 13 de setembro de 2026. A edição oferece uma Sala Sensorial com iluminação e som reduzidos, um kit de regulação sensorial com abafadores de ruído, óculos escuros e objetos sensoriais, e terapeutas ocupacionais presentes durante todo o evento. O acesso a esses serviços passa pela Central de Acessibilidade, que emite a pulseira de identificação.

Isso muda a conversa que acontece na clínica. Durante anos a pergunta da família foi se dava para ir. Agora a pergunta é como ir bem. Este texto reúne o que a literatura sustenta sobre essa segunda pergunta, e vale para o festival, para o aniversário do primo, para a formatura, para o voo e para a consulta médica.

Por que um ambiente cheio de estímulo pesa tanto

Diferenças no processamento sensorial acompanham a maior parte das pessoas autistas. Numa vigilância populacional norte-americana com 25.627 crianças autistas de 4 e de 8 anos, 74% tinham características sensoriais registradas nos prontuários de saúde e de educação, com intervalo de confiança de 95% entre 73,5% e 74,5% (Kirby et al., 2022).

Vale ler esse número pelo que ele é. Trata-se de uma taxa de registro em documento, com uma variável binária única, e não de uma avaliação sensorial padronizada. Os próprios autores observam que a ausência de registro não equivale à ausência da característica, de modo que a prevalência real pode ser maior, e o valor cai dentro da faixa de 53% a 94% que a literatura já descrevia. Um achado do mesmo estudo merece destaque, as características sensoriais não se associaram à capacidade cognitiva, o que contraria a suposição comum de que elas acompanham o grau de suporte.

Uma coorte acompanhada aos 3, aos 6 e aos 9 anos mediu algo mais específico, a subescala de filtragem auditiva do Short Sensory Profile, com seis itens de relato do cuidador sobre funcionar com barulho de fundo, como se distrair no meio de muito som e não conseguir completar uma tarefa com a televisão ligada. Mais de 70% das crianças ficaram na faixa de diferença provável ou definida nos três momentos, chegando a 80% aos 9 anos (Lau et al., 2023). É exatamente o problema de um festival. Os autores registram que a amostra teve 49, 29 e 52 crianças em cada momento, e que apenas 14 delas foram avaliadas nas três idades, e observam que os dados sugerem três trajetórias distintas, quem se mantém, quem melhora e quem piora.

Não existe um perfil sensorial autista. Existe o perfil daquela pessoa.

A consequência prática aparece rápido. Duas pessoas autistas na mesma fila do mesmo show podem precisar de coisas opostas. Uma precisa de menos som, menos luz e menos gente. A outra busca o grave da caixa, o movimento e a multidão, e passa mal se ficar parada num canto silencioso. Um evento que só reduz estímulo atende a primeira e deixa a segunda de fora. Mais adiante, na parte sobre abafadores, aparece uma demonstração concreta disso, num mesmo estudo algumas crianças preferiram um tipo de proteção auditiva e outras abandonaram esse mesmo tipo justamente por causa do que ele deixava passar.

Dois estudos, duas medidas diferentes Os números medem coisas distintas, e a diferença importa na leitura 74% Kirby 2022, 25.627 crianças autistas de 4 e 8 anos característica sensorial registrada em prontuário >70% Lau 2023, aos 3, 6 e 9 anos, chegando a 80% aos 9 dificuldade relatada para funcionar com barulho de fundo Os dois são de relato e registro, e não de avaliação sensorial direta. Nenhum dos dois quebra o dado por subtipo sensorial. Em Lau, apenas 14 crianças foram avaliadas nas três idades.
O que cada estudo mede, e o que ele não mede.

O que se sabe, e o que não se sabe, sobre a conta que isso cobra

A intuição clínica é que a barreira sensorial reduz a vida em comunidade da pessoa e da família inteira. Vale ver o que a literatura sustenta, porque aqui ela é mais fraca do que se costuma dizer.

Uma revisão sistemática reuniu 63 relatos, referentes a 58 estudos, sobre participação comunitária de adultos autistas. A conclusão dos autores sobre a comparação com outros grupos é explícita, poucos estudos compararam adultos autistas à população geral ou a pessoas com outras deficiências, e por isso foi difícil determinar se adultos autistas de fato têm participação restrita quando comparados a outras pessoas (Cameron et al., 2022). Numa das poucas comparações disponíveis, adultos autistas participaram mais de grupos organizados do que a população geral, 47% contra 16% nos três meses anteriores. Os autores registram ainda que 91% dos estudos tinham risco moderado a alto de viés, e pedem cautela significativa sobre qualquer conclusão. A mesma revisão trata barreiras sensoriais de passagem, mencionando questões de sensação numa lista de barreiras, sem síntese nem estimativa.

Ou seja, a afirmação de que pessoas autistas participam menos circula muito e está pior sustentada do que parece. O que existe de mais consistente é o relato em primeira pessoa. Num projeto participativo com fotovoice conduzido em Montreal entre 2014 e 2021, com seis crianças na primeira fase e dez pessoas autistas de 15 a 42 anos na segunda, os participantes descreveram em detalhe onde o ambiente os expulsa, o transporte lotado onde se é espremido, o corredor da escola, a loja do shopping, o restaurante com várias televisões ligadas (Clément et al., 2022). Um dos temas do estudo se chama, nas palavras de uma participante, eu não posso ser a única.

Isso é evidência qualitativa, e é o tipo certo de evidência para essa pergunta. Ela não diz quantos, e diz muito bem o quê.

O que a evidência sustenta com mais força é o preparo

O relatório do National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice revisou a literatura e identificou 28 práticas baseadas em evidência para pessoas autistas de 0 a 22 anos (Steinbrenner et al., 2020). Sete delas descrevem o que se faz antes e durante uma saída difícil, e cada uma faz uma coisa distinta.

PráticaArtigos que sustentamO que ela faz, e como aparece na preparação de uma saída
Intervenção baseada em antecedentes (ABI)49Modifica o ambiente e a atividade antes que o comportamento aconteça. A definição do relatório inclui preparar a pessoa com antecedência para as atividades que virão, incorporar escolha e enriquecer o ambiente com pistas. É aqui que entram mostrar fotos e vídeos do lugar antes, passar na frente sem entrar e reduzir a duração da ida
Apoios visuais (VS)65Pistas concretas que informam sobre a atividade e a expectativa. Agenda visual do dia inteiro, mapa do local, cronograma do trajeto e da volta, cartão de pausa
Narrativas sociais (SN)21Descreve a situação social destacando o que é relevante e sugerindo respostas. A história curta em primeira pessoa sobre como vai ser o dia
Modelação por vídeo (VM)97Demonstração em vídeo da habilidade que a pessoa vai precisar usar, para ela aprender a fazer. Não é ver o lugar, é ver alguém executando o comportamento. Colocar e ajustar o abafador, entregar o ingresso, pedir na lanchonete, mostrar o cartão de pausa a um funcionário. A própria pessoa pode ser o modelo do vídeo
Treino de habilidades sociais (SST)74Instrução direta dos conceitos, mais ensaio e feedback, para participar das interações que o dia exige. Falar com um funcionário, esperar numa fila junto de desconhecidos, combinar com quem foi junto, lidar com alguém que puxa conversa
Treino de comunicação funcional (FCT)31Ensina uma forma de comunicação que cumpre a mesma função de um comportamento de fuga ou de recusa. É o que sustenta o pedir pausa e o pedir para sair, e vem depois de identificar a função do comportamento
Comunicação aumentativa e alternativa (AAC)44O sistema de comunicação em si, com gesto, sinal, cartão, prancha ou aplicativo, para a comunicação continuar disponível quando a fala não está
Quando cada prática entra O preparo se distribui no tempo, e quase tudo acontece antes de sair de casa Semanas antes Dias antes No dia Decidir junto com a pessoa Mostrar fotos e vídeos do lugar Ensaiar a habilidade em vídeo Ensaiar as interações do dia Ensinar o pedido de pausa Testar o abafador em casa ABI · VM · SST · FCT Montar a agenda visual do dia inteiro Escrever e ler junto a história social Definir a dose e a hora de sair VS · SN · ABI Levar o recurso de comunicação que a pessoa já usa Cartão de pausa à mão Pausa marcada no relógio, antes de precisar dela AAC · VS
As siglas são as práticas do relatório do NCAEP citadas na tabela acima.

Acomodação e Integração Sensorial® não são a mesma coisa

Acomodação é mudar o ambiente ou dar um recurso para que a pessoa consiga participar do jeito que ela é. Reduzir o som, oferecer um lugar calmo, permitir o abafador, encurtar a permanência. Isso é o campo da intervenção baseada em antecedentes e dos apoios visuais, e o alvo é a barreira.

Integração Sensorial® é outra coisa. É uma intervenção clínica individualizada, conduzida por terapeuta ocupacional com formação específica, com equipamento próprio e em setting clínico, que usa atividades com desafio na medida certa para melhorar o comportamento adaptativo (Steinbrenner et al., 2020). O alvo é a pessoa, e não o ambiente do evento.

Dois alvos diferentes A BARREIRA Acomodação O alvo é o ambiente Reduzir o som, oferecer um lugar calmo, permitir o abafador, encurtar a permanência Campo da intervenção baseada em antecedentes e dos apoios visuais A PESSOA Integração Sensorial® O alvo é a pessoa Atividades individualizadas com desafio na medida certa, para o comportamento adaptativo Conduzida por terapeuta ocupacional com formação específica, em setting clínico
Uma não substitui a outra, e usar o nome de uma para justificar a outra confunde a família.

Por que o preparo funciona

O ambiente de um festival muda o tempo todo e ninguém controla. O que dá para controlar é o que vem antes. Quando a pessoa já sabe o caminho, já viu o lugar, já sabe quanto tempo fica, já aprendeu a pedir a pausa e já tem como pedir ajuda, o esforço de lidar com o inesperado cai. A previsibilidade que se constrói em casa é a que sobra para gastar no show.

O plano de oito passos

  1. Decida com a pessoa, e não por ela. Pergunte se ela quer ir, o que ela quer ver e o que a preocupa. Não ir é uma resposta legítima, e uma pessoa que escolhe ficar em casa não perdeu nada. Quando ela quiser ir, ela vira coautora do plano.
  2. Cheque o que o evento oferece, com data. No Rock in Rio de 2026, os serviços passam pela Central de Acessibilidade, que emite a pulseira. O pré-cadastro correu entre 27 de julho e 15 de agosto, e quem não fez o cadastro faz o registro presencial na própria Central, com documento oficial e laudo. Serviço de evento muda, então confirme no site oficial na semana da ida.
  3. Monte a agenda visual do dia inteiro. Fotos ou desenhos na ordem, sair de casa, transporte, fila, entrada, primeiro show, pausa, comida, segundo show, volta. Inclua o trajeto e a volta, que costumam ficar de fora e costumam ser a parte mais difícil.
  4. Escreva uma história social. Um texto curto, em primeira pessoa, que descreve o que vai acontecer, o que a pessoa vai ver e ouvir, e o que ela faz se ficar demais. Leia junto algumas vezes na semana anterior.
  5. Mostre o lugar antes, e ensaie a habilidade. São duas coisas diferentes e as duas ajudam. Mostrar o lugar é vídeo da entrada, foto do palco cheio e o som de uma multidão em volume baixo em casa, e se der, passar na frente uma vez sem entrar. Ensaiar a habilidade é ver alguém fazendo o que o dia vai pedir e depois praticar, entregar o ingresso, colocar o abafador, pedir na lanchonete, mostrar o cartão de pausa a um funcionário. A própria pessoa pode ser o modelo do vídeo.
  6. Ensine o pedido de saída e garanta a comunicação. Um gesto, uma palavra ou um cartão que significa quero sair agora, e que a família se compromete a atender sem discussão. Esse pedido precisa ser ensinado antes, e não combinado no corredor. Leve também o recurso de comunicação que a pessoa usa, o caderno, o aplicativo ou os cartões, porque a fala é a primeira coisa que fica indisponível na sobrecarga.
  7. Planeje a dose. Escolha um show, não sete. Chegue antes da multidão. Marque a pausa na Sala Sensorial no relógio, antes de precisar dela, e não depois. Combine o horário de ir embora e cumpra, mesmo que esteja indo bem.
  8. Leve o kit da própria pessoa. O abafador que ela já usa e já testou em casa, óculos escuros, água, uma comida conhecida, o objeto familiar. O kit do evento é uma reserva, e não o plano principal, porque um recurso novo no dia mais difícil do ano é um risco a mais.

O que ainda não dá para afirmar

Salas sensoriais, horários silenciosos e ambientes adaptados se espalharam por lojas, estádios, museus e festivais numa velocidade que a pesquisa não acompanhou. Um editorial na revista Autism descreve a situação em uma frase, a base empírica que sustentaria essas diretrizes e iniciativas é escassa (Manning et al., 2023). Os autores pedem que se avalie o efeito das adaptações sobre três coisas concretas, a disposição da pessoa autista de frequentar espaços públicos, o quanto ela se sente incluída neles e a qualidade de vida.

Escassa não quer dizer inexistente, e o editorial não é contra as adaptações. Os mesmos autores registram uma literatura crescente sobre processamento sensorial no autismo, tratam como estabelecido o impacto disso na saúde mental e na qualidade de vida, defendem princípios de desenho universal e reconhecem que muitos dos princípios corretos já aparecem nas iniciativas existentes. O que falta é a etapa seguinte, medir se a adaptação implementada muda alguma coisa para quem usa.

Onde a evidência está mais firme Três coisas costumam ser tratadas como se tivessem o mesmo respaldo, e não têm Preparo antecedente 21 a 97 artigos por prática Ambiente clínico adaptado Um ensaio cruzado, declaradamente piloto, com efeito fisiológico e não comportamental Sala sensorial Sem estudo de desfecho até agora. Remove uma barreira, e isso ainda não foi medido
O comprimento da barra representa o quanto a literatura sustenta cada item, e não o quanto ele ajuda uma pessoa específica.

A revisão sistemática mais rigorosa sobre adaptação de ambiente físico partiu de 319 registros e reteve 20 estudos. A conclusão dos autores é que existe evidência insuficiente para avaliar plenamente a utilidade dos ajustes, em parte por limitações de método, e que há escassez de evidência apesar da popularidade da prática (Weber et al., 2022). A frase mais direta do texto é que nenhum estudo se propôs a testar a eficácia dos ajustes físicos. Vale registrar o alcance dessa revisão para não a esticar além do que ela cobre, ela trata de trabalhadores adultos em ambiente administrativo, exclui menores de 18 anos e exclui locais de trabalho que não incluam escritório. Ela não é evidência sobre eventos, e serve aqui como retrato do estado da literatura sobre adaptar ambiente.

O estudo que mais se aproxima de um teste, e o que ele mostra

A melhor evidência controlada de adaptação de ambiente vem do consultório odontológico. Num estudo randomizado cruzado, 44 crianças de 6 a 12 anos, sendo 22 autistas, passaram por duas limpezas dentárias com três a quatro meses de intervalo, uma em ambiente comum e outra em ambiente sensorialmente adaptado, em ordem randomizada e contrabalanceada. O ambiente adaptado tinha cortina blackout, luz ambiente indireta, projeção lenta de efeitos visuais no teto, lanterna de cabeça no lugar do refletor, música rítmica e uma faixa com peso que envolve a criança na cadeira (Cermak et al., 2015).

O resultado precisa ser lido inteiro. A condutância da pele caiu de forma significativa no ambiente adaptado, com p igual a ,01, e as respostas eletrodérmicas não específicas também caíram em uma das janelas de medida. Já as medidas comportamentais de desconforto não atingiram significância, apesar de irem todas na direção esperada com efeitos pequenos. O autorrelato de dor e de desconforto sensorial melhorou, e aqui vem a ressalva mais importante, apenas cerca de metade das crianças autistas conseguiu responder ao autorrelato, 13 numa condição e 10 na outra. A limpeza no ambiente adaptado durou de cinco a sete minutos a mais. E os próprios autores escrevem que o estudo foi desenhado como piloto de viabilidade, sem poder estatístico para detectar diferenças entre os dois ambientes, o que limita qualquer conclusão definitiva sobre a eficácia.

Sobre o abafador de ruído

O abafador é o recurso mais usado e um dos menos estudados, e a pergunta certa não é se ele funciona, é qual tipo, para qual som.

Um estudo japonês comparou dois dispositivos em crianças e adolescentes autistas com hiper-reatividade auditiva. O desenho teve três períodos de duas semanas, com a linha de base sempre primeiro e a ordem dos dois dispositivos sorteada, e o desfecho foi uma escala de alcance de metas avaliada por pais e professores. O protetor auricular do tipo concha, um 3M PELTOR com atenuação de 27 dB, melhorou o desfecho de forma significativa em relação à linha de base, com Z igual a 2,726 e p igual a ,006, em 16 crianças. O fone com cancelamento ativo de ruído, um Sony com atenuação de 20 dB, não atingiu significância, com Z igual a 1,689 e p igual a ,091, em 12 crianças (Ikuta et al., 2016).

A explicação dos autores é a parte mais útil. O cancelamento ativo funciona bem em ruído contínuo de baixa frequência, motor, ar-condicionado, duto de ar, e não funciona bem em som que muda de frequência e amplitude o tempo todo, como a voz humana. Cinco crianças abandonaram o cancelamento ativo justamente porque, com o ruído de fundo reduzido, passaram a ouvir as vozes com mais clareza e isso piorou. Outras crianças preferiram o cancelamento ativo, e o incômodo delas eram sons de motor e de piano. Quatro recusaram os dois dispositivos por causa da pressão na cabeça.

Um segundo estudo testou fones com cancelamento ativo em seis crianças de 8 a 16 anos com hipersensibilidade auditiva, nos ambientes reais de cada uma, e encontrou queda na ativação eletrodérmica em relação à linha de base (Pfeiffer et al., 2019). Três ressalvas acompanham esse achado. O estudo mediu apenas resposta fisiológica, sem nenhum desfecho de comportamento ou de participação, e os próprios autores pedem que estudos futuros verifiquem se essa queda tem algum impacto relevante. Metade das crianças recrutadas saiu do estudo. E o estudo foi parcialmente financiado pela fabricante dos fones usados, o que os autores declaram.

Qual proteção para qual som A escolha depende do som que incomoda, e não da preferência de quem compra Som contínuo de baixa frequência Motor, ar-condicionado, duto de ar, ruído de fundo constante Fone com cancelamento ativo é onde ele funciona melhor Voz humana e som que muda o tempo todo Conversa, grito, som agudo, barulho de sala cheia Protetor passivo do tipo concha é onde ele funciona melhor Nos dois casos, testar em casa semanas antes, e usar para filtrar em momentos escolhidos, e não o tempo todo.
O cancelamento ativo reduz pouco a voz humana, e foi por isso que cinco crianças do estudo japonês o abandonaram.

O que isso muda na prática

  • Descubra qual som incomoda antes de escolher o dispositivo. Ruído contínuo de máquina e voz humana pedem soluções diferentes.
  • Teste em casa, semanas antes. A hora de descobrir que a pressão na cabeça incomoda não é no portão do evento.
  • O protetor do tipo concha atenua também a fala, o que atrapalha quem precisa escutar instruções ou conversar.
  • Os autores dos dois estudos alertam na mesma direção. O uso habitual de isoladores de som pode piorar a sensibilidade ao longo do tempo, e a evitação completa de som pode aumentar a ansiedade. O objetivo é filtrar em momentos escolhidos, e não bloquear o tempo todo.

O que este texto não promete

  • Nenhuma preparação garante que a pessoa vai ficar o dia inteiro, e sair mais cedo não é fracasso do plano. Sair na hora certa é o plano funcionando.
  • A sala sensorial remove uma barreira e ainda não foi testada em desfecho. Vale usar, e vale descrever pelo que ela é.
  • Nada aqui substitui a avaliação individual. O plano de uma pessoa não serve para a outra.

A adaptação que inclui e a que separa

Um ensaio conceitual em geografia urbana, sem dados primários, levanta duas objeções às iniciativas de cidade amigável ao autismo. A primeira é que, mesmo bem-intencionadas, elas têm potencial para marcar a diferença e produzir uma segregação não intencional. A segunda é que muitas se concentram em luz e som, o que corre o risco de reduzir uma condição complexa a sensibilidade a lâmpada e a barulho, e vai contra o trabalho do movimento da neurodiversidade pelo reconhecimento da heterogeneidade (Kenna, 2022). A autora não defende o fim dessas iniciativas. O que ela pede é que elas se diversifiquem para além de luz e som, e que sejam pesquisadas.

No estudo participativo de Montreal, os participantes rejeitaram espaços separados e propuseram zonas sensorialmente tranquilas integradas aos lugares que já existem, com sinalização universal que qualquer pessoa entenda e possa usar. A razão que eles deram é direta, uma zona integrada não separa ninguém do resto e ainda acolhe quem também procura um pouco de silêncio (Clément et al., 2022). Vale registrar duas coisas. Essa proposta é uma construção coletiva do grupo, e não uma intervenção implementada e avaliada, e a fase de ação do projeto foi interrompida pela pandemia. E o estudo trata de transporte, escola, loja e restaurante, sem mencionar shows ou festivais, de modo que aplicar a ideia a um evento é uma extensão nossa e não um achado deles.

A lógica é de desenho universal. Uma zona tranquila num canto do festival serve à pessoa autista, à pessoa com enxaqueca, à gestante, ao idoso e a quem só precisa de dez minutos de silêncio. Existe ainda um conflito de acessibilidade que raramente se discute, e que o editorial da Autism levanta. Luz muito baixa ajuda quem tem hipersensibilidade visual e atrapalha quem tem baixa visão a se orientar. Adaptação boa é a que se pergunta quem mais está na sala.

Como a Jano entra nisso

Na prática clínica, esse tema aparece em três lugares. Na avaliação, ao mapear o perfil sensorial da pessoa e o quanto ele está restringindo a participação dela e da família. No plano terapêutico, ao ensinar de forma direta o repertório que a saída exige, pedir pausa, pedir ajuda, usar o recurso de comunicação, tolerar espera. E na orientação à família, ao construir junto o plano da ida específica, com a agenda visual, a história social e o ensaio.

Terapia ocupacional, fonoaudiologia com comunicação aumentativa e alternativa e análise do comportamento aplicada trabalham juntas nesse ponto. O objetivo não é fazer a pessoa aguentar mais estímulo. É ampliar o que ela consegue escolher fazer.

Quer construir esse plano com a nossa equipe.
A Jano Saúde fica no Rio de Janeiro e atende avaliação e terapias interdisciplinares. Fale com a gente para entender o perfil sensorial e montar o plano da próxima saída.

Em resumo

  • Diferenças sensoriais acompanham a maior parte das pessoas autistas, e o perfil varia muito de uma pessoa para outra.
  • O quanto isso restringe a vida em comunidade é bem descrito no relato em primeira pessoa e ainda mal medido na literatura quantitativa.
  • O que tem base experimental mais sólida é o preparo antecedente, com apoios visuais, narrativa social, modelação por vídeo da habilidade, ensino do pedido de pausa e comunicação garantida.
  • O ambiente adaptado remove barreira e ainda está em teste. Use, e descreva com honestidade.
  • No abafador, o tipo importa e depende de qual som incomoda. Teste antes, e use para filtrar em momentos escolhidos.
  • A adaptação que funciona melhor é a integrada ao espaço comum, e não a sala separada com etiqueta de diagnóstico.
  • A decisão de ir é da pessoa autista, e o plano é construído com ela.

Referências

  1. Cameron, L. A., Borland, R. L., Tonge, B. J., & Gray, K. M. (2022). Community participation in adults with autism, a systematic review. Journal of Applied Research in Intellectual Disabilities, 35(2), 421–447. https://doi.org/10.1111/jar.12970
  2. Cermak, S. A., Stein Duker, L. I., Williams, M. E., Dawson, M. E., Lane, C. J., & Polido, J. C. (2015). Sensory adapted dental environments to enhance oral care for children with autism spectrum disorders, a randomized controlled pilot study. Journal of Autism and Developmental Disorders, 45(9), 2876–2888. https://doi.org/10.1007/s10803-015-2450-5
  3. Clément, M.-A., Lee, K., Park, M., Sinn, A., & Miyake, N. (2022). The need for sensory-friendly zones, learning from youth on the autism spectrum, their families, and autistic mentors using a participatory approach. Frontiers in Psychology, 13, 883331. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2022.883331
  4. Ikuta, N., Iwanaga, R., Tokunaga, A., Nakane, H., Tanaka, K., & Tanaka, G. (2016). Effectiveness of earmuffs and noise-cancelling headphones for coping with hyper-reactivity to auditory stimuli in children with autism spectrum disorder, a preliminary study. Hong Kong Journal of Occupational Therapy, 28(1), 24–32. https://doi.org/10.1016/j.hkjot.2016.09.001
  5. Kenna, T. (2022). Cities of neurodiversity, new directions for an urban geography of neurodiversity. Area, 54(4), 646–654. https://doi.org/10.1111/area.12803
  6. Kirby, A. V., Bilder, D. A., Wiggins, L. D., Hughes, M. M., Davis, J., Hall-Lande, J. A., Lee, L.-C., McMahon, W. M., & Bakian, A. V. (2022). Sensory features in autism, findings from a large population-based surveillance system. Autism Research, 15(4), 751–760. https://doi.org/10.1002/aur.2670
  7. Lau, B. K., Emmons, K. A., Lee, A. K. C., Munson, J., Dager, S. R., & Estes, A. M. (2023). The prevalence and developmental course of auditory processing differences in autistic children. Autism Research, 16(7), 1413–1424. https://doi.org/10.1002/aur.2961
  8. Manning, C., Williams, G., & MacLennan, K. (2023). Sensory-inclusive spaces for autistic people, we need to build the evidence base. Autism, 27(6), 1511–1515. https://doi.org/10.1177/13623613231183541
  9. Pfeiffer, B., Stein Duker, L., Murphy, A., & Shui, C. (2019). Effectiveness of noise-attenuating headphones on physiological responses for children with autism spectrum disorders. Frontiers in Integrative Neuroscience, 13, 65. https://doi.org/10.3389/fnint.2019.00065
  10. Steinbrenner, J. R., Hume, K., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, S., & Savage, M. N. (2020). Evidence-based practices for children, youth, and young adults with autism. National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice Review Team, University of North Carolina at Chapel Hill.
  11. Weber, C., Krieger, B., Häne, E., Yarker, J., & McDowall, A. (2022). Physical workplace adjustments to support neurodivergent workers, a systematic review. Applied Psychology, 73(3), 910–962. https://doi.org/10.1111/apps.12431

Nota sobre as informações do festival. Os serviços de acessibilidade descritos aqui foram consultados no site oficial do Rock in Rio em 31 de agosto de 2026. Serviços, prazos e formas de cadastro mudam, então confirme no canal oficial antes da ida.

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